
As caminhadas mais famosas da Madeira seguem canais de rega, e a água não sobe montanhas. O melhor passeio da ilha exige muito menos do que imagina.
O caminho tem a largura de um portão de jardim e não subiu um metro em meia hora. À esquerda, um canal de água limpa desliza ao ritmo de um passeio lento. À direita, um vale cheio de loureiros. Segundo todos os guias, está a fazer um trilho. O seu ritmo cardíaco discorda.
Eis a frase que nunca chega a esses guias: a maioria das levadas famosas da Madeira é plana. Não é suave, não é ondulada. É plana. Se a palavra trilho lhe evoca botas, bastões, suor e uma fotografia de cume que nem queria, este artigo é para si. Pode dispensar as botas. Pode dispensar o cume. Não deve dispensar as levadas.
Uma levada é um canal de rega com um caminho de manutenção ao lado. Como a água atravessa a ilha quase de nível, o caminho também. Se consegue andar duas horas num passeio marítimo, consegue percorrer uma levada. Nos passeios fáceis, os ténis servem. A manhã ganha à tarde. Comece pelos Balcões.
O problema nasceu com a ilha. O lado norte da Madeira apanha o tempo do Atlântico e vive a pingar. O lado sul tem o sol, o abrigo e a terra de cultivo, e água que não chega. A resposta dos povoadores, começada nos primeiros séculos do povoamento e ainda a crescer no século vinte, foi rasgar canais ao longo das falésias e através da rocha, à mão, e deixar a gravidade fazer as entregas.
Diz-se que a rede soma mais de mil e quinhentos quilómetros. Trate o número como folclore, se quiser. O que é certo é que se trata de uma teia de canais construída ao longo de cinco séculos, e que ainda trabalha. A água ao seu lado não é decoração: vai a caminho de socalcos de bananeiras, vinhas e turbinas, e o caminho existe para que o levadeiro, o guardião do canal, faça as suas rondas. É um convidado numa infraestrutura em funcionamento. É metade do encanto.
A água não sobe montanhas. Os homens que construíram as levadas deram a cada canal a queda mais suave possível, apenas o suficiente para a água continuar a andar, e o caminho de manutenção segue a mesma linha. Daqui sai a única regra de que precisa: se a água ao seu lado vai a passo, quem a acompanha também vai. Canal plano, caminho plano, tarde plana.
A nota de rodapé honesta: chegar a uma levada é, por vezes, outra história. Alguns passeios famosos começam com uma descida a sério até ao canal e terminam com a mesma subida no regresso. E as veredas da Madeira, os caminhos de montanha com Pico no nome, são outro desporto: magníficas, e exatamente aquilo que lhe prometemos que podia evitar. Leia o nome antes de decidir. A levada anda de nível. A vereda sobe.
A água não sobe montanhas. Quem a segue também não sobe.
Comece no Ribeiro Frio, na estrada antiga que atravessa o meio da ilha, e conte com cerca de hora e meia, com pausas. O caminho é largo, plano e impossível de perder, e termina na varanda que o nome promete: uma sacada de pedra com os picos centrais empilhados à sua frente e o vale da Metade a cair lá em baixo. Os tentilhões pousam-lhe na mão se ficar quieto, e às vezes mesmo que não fique. Os ténis chegam perfeitamente. Faça-a a caminho de outro sítio e sabe a roubo.
No lado norte, acima de São Jorge, a Levada do Rei parte de uma estação de água e entra numa floresta de laurissilva que fecha por cima como um telhado, até acabar num desfiladeiro chamado Ribeiro Bonito, nome que fica aquém. É o passeio para o dia em que quer a ilha primitiva e quase só para si. Duas cautelas, ambas honestas: o caminho é mais estreito do que os Balcões, e há troços que têm estado fechados para obras nos últimos anos. Confirme que está aberta antes de atravessar a ilha por ela.
Já viu a fotografia: uma lagoa escura, um anfiteatro coberto de musgo, fios de água a desfiar pela parede. As 25 Fontes merecem a fama. São também, normalmente, o trilho mais cheio da ilha, e ao fim da manhã os troços estreitos andam ao ritmo de uma fila de espera. E são a exceção à regra do plano: a partir do Rabaçal, o percurso desce a sério até ao canal, e a descida transforma-se em subida no regresso.
O acordo honesto é este: vá às oito da manhã, ou não vá. Cedo, o passeio é tudo o que a fotografia prometeu, e ouve as nascentes antes de as ver. Ao meio-dia de agosto é uma procissão, e não há cascata que sobreviva a isso. Não existe terceira opção que valha a pena.
O leste da ilha é mais seco, e a levada acima de Machico mostra como são os canais fora da floresta húmida: cheios de luz, debruados de mimosas, com o vale de Machico aberto até ao mar lá em baixo. Está normalmente sossegada mesmo em época alta, porque não tem cascata para gerar filas. É exatamente essa a graça. Escolha-a pela luz, não pelo espetáculo. E se ficar alojado no sudoeste, o troço da Levada do Norte acima do Estreito de Câmara de Lobos oferece o mesmo passeio fácil por entre vinhas, quase sempre sem mais ninguém à vista além de um agricultor.
Calce ténis com alguma aderência. Nos passeios fáceis, a questão do equipamento resume-se genuinamente a isto. Junte um casaco impermeável, faça o tempo que fizer, porque as levadas vivem onde vivem as nuvens, e leve água e algo doce. Botas, bastões e polainas são para as rotas de montanha: nos Balcões, denunciam-no como uns esquis numa praia.
Quanto à época: de abril a junho e de setembro a outubro são os meses amáveis, com tempo estável e a água ainda a correr bem. O inverno é a troca dos conhecedores: os canais correm em voz alta e as cascatas duplicam, mas alguns trilhos fecham após chuva forte, por isso confirme na véspera e mantenha os planos flexíveis. No verão, comece cedo, e não é só por causa do calor.
Agora o parágrafo que as brochuras saltam. Há levadas que seguem por cornijas talhadas na falésia, com uma queda a sério de um dos lados e, em certos troços, sem qualquer guarda entre o caminho e o vazio. Esses passeios existem, são famosos precisamente por isso, e ninguém com vertigens deve ser convencido a fazê-los. Os passeios acima foram escolhidos por serem, na sua maior parte, largos e tolerantes, mas as condições mudam: leia uma descrição recente antes de ir, e se encontrar as palavras exposto, estreito ou vertiginoso, acredite nelas e escolha outro canal. Há centenas.
A outra pessoa para quem isto não é: o colecionador de cumes, o caminhante que precisa de metros de subida para o dia contar. As levadas vão aborrecê-lo lindamente. Mande-o subir ao Pico Ruivo, por uma vereda, e combine o jantar.
Fique de pé num caminho de levada e está dentro do carácter inteiro da Madeira. A ilha não lutou contra a montanha, negociou com ela: alguns centímetros talhados à mão de cada vez, ao longo de cinco séculos, até o lado chuvoso aceitar alimentar o lado seco. Nenhum troço de canal é impressionante sozinho. A rede é espantosa. Paciência, disfarçada de infraestrutura.
Foi também assim, já agora, que construímos a coleção KIVO: devagar, casa a casa, cada uma visitada pessoalmente na costa que a mereceu. Várias das nossas casas ficam a uma manhã tranquila dos passeios acima. Diga-nos que levada tem em mente, e dizemos-lhe em que costa deve dormir, e que casa guarda o sol para o seu regresso.
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