
Os visitantes de um dia partem às sete e meia. Nove quilómetros de praia ficam para quem ficou.
Toda a gente lhe diz que Porto Santo é ida e volta no mesmo dia. Foi a companhia aérea que decidiu isso, não a ilha. O primeiro voo da Binter sai do Funchal às sete e meia da manhã e o último regressa às sete e meia da tarde, por isso as doze horas já estavam decididas antes de reservar seja o que for.
Fique uma noite e a ilha muda de mãos. Os visitantes de um dia levantam voo às sete e meia, e nove quilómetros de praia ficam para quem ficou.
Uma noite é a diferença entre ver Porto Santo e estar em Porto Santo. Duas se jogar golfe. Três se veio mesmo descansar, porque à terceira manhã deixa de olhar para as horas. Com crianças corre bem em qualquer duração: nove quilómetros de água morna e rasa tomam conta delas por si.
A ilha é pequena e a escolha é pequena com ela — meia dúzia de sítios para comer, uma vila, nenhuma autoestrada. É essa a troca, e para a maioria de quem volta acabou por ser esse o apelo.
A areia corre nove quilómetros sem interrupção ao longo da costa sul, numa ilha com 11,4 quilómetros de comprimento. Pode caminhar uma hora e continuar na mesma praia. Não é uma vista que se fotografa. É uma distância que se percorre, devagar e quase sempre descalço.
E não se comporta como as outras areias. É carbonatada biogénica — feita de organismos marinhos e não de rocha moída — e retém o calor de outra maneira. Há quem se enterre nela até ao pescoço, prática antiga o suficiente para ter nome: psamoterapia. Quando um painel europeu pôs esta praia em primeiro entre vinte e duas, em 2022, começou pela areia e não pela vista. Isso é invulgar, e diz-lhe o que a ilha tem mesmo.
Lentos, de propósito. As manhãs de praia são longas porque não há onde ter de estar. Vai usar o carro umas duas horas ao todo e depois deixa de se dar ao trabalho.
Suba ao Pico do Facho uma vez, aos 517 metros, de onde se vê a ilha inteira de uma vez. Dê uma tarde a Vila Baleira: a praça é o Largo do Pelourinho, e o museu Casa Colombo merece uma hora por uma razão que os guias saltam. Colombo casou aqui com Filipa Moniz Perestrelo em 1479, e o pai dela, já falecido, tinha sido o primeiro capitão-donatário da ilha. Chegou marinheiro novo e saiu com as cartas e os diários do homem. O museu guarda também material de um galeão da Companhia Neerlandesa das Índias Orientais que se afundou a norte da ilha em 1724.
Ninguém chega à espera do golfe. O campo foi desenhado por Severiano Ballesteros, abriu em 2004, e a volta norte sobe às falésias de basalto com três buracos junto à costa.
Os moinhos vai fotografá-los sem dar por isso. O primeiro subiu em 1794 para moer o cereal do pão, e chegaram a ser cerca de trinta.
Quase sempre. A ilha está na mesma faixa atlântica da Madeira e o mar continua a dar banhos muito depois de o norte da Europa ter desistido da ideia.
Agosto é a única quinzena cheia: os madeirenses atravessam para o veraneio e a população residente de pouco mais de cinco mil quase triplica. É bom ambiente, se quiser companhia. Se veio pela versão vazia — a das fotografias — venha de um lado ou do outro, e terá o sítio quase só para si.
É esse o argumento todo para ficar a noite. Tudo o resto na ilha é extra: o golfe, a vista do Facho, um serão em Vila Baleira, a areia em que as pessoas viajam para se deitar.
O último voo parte às sete e meia. Esteja na praia quando ele partir.
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A equipa editorial da KIVO dedica-se a descobrir e partilhar as melhores histórias das ilhas, desde arquitetura e design até experiências autênticas e encontros culturais.