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Esqueça a lista de hotéis. Numa ilha com cinco climas, a única decisão que importa é em que costa acorda.
São onze da noite e tem catorze separadores abertos no browser. Todos a tentar responder à mesma pergunta: qual é o melhor hotel na Madeira. Más notícias. A pergunta está errada, e não há scroll que a corrija.
A Madeira não é um sítio. É uma cordilheira que calhou ficar de pé no Atlântico, quase dois mil metros de rocha vulcânica com vilas agarradas aos pés, e essas vilas vivem em climas diferentes. Duas aldeias a vinte minutos uma da outra, ligadas por um túnel, podem estar a ter duas tardes diferentes. Numa, grelham-se lapas debaixo de céu limpo. Na outra, a nuvem desceu ao nível do mar e a ondulação atira água por cima da estrada.
Por isso este guia não lhe vai dar uma lista de vinte melhores zonas. Vai obrigá-lo a escolher uma costa, e depois uma vila. E para cada sítio que recomenda, diz-lhe também quem não deve ficar lá. É a parte que os outros guias deixam sempre de fora.
Primeira viagem sem carro: Funchal. Famílias que querem piscina e praia de areia: Calheta. Só vocês os dois: Ponta do Sol. Uma vila a sério perto da capital: Câmara de Lobos. Vales verdes e cascatas, chuva incluída: Seixal ou São Vicente. Voos a horas esquisitas: Machico. O resto deste guia explica porquê, e quem deve evitar cada uma destas escolhas.
Primeiro os números. A Madeira tem 57 quilómetros de comprimento, 22 de largura, e 1.862 metros de altura no Pico Ruivo. É o último número que importa. O maciço central funciona como um muro: a costa norte apanha em cheio o tempo do Atlântico aberto, vento, ondulação e chuva, enquanto a costa sul fica ao abrigo, mais seca e mais quente, com um mar suficientemente calmo para se nadar quase todo o ano. O leste é mais plano e mais ventoso, e é onde está o aeroporto. Não são diferenças subtis. São climas diferentes a partilhar uma ilha pequena.
A altitude faz o resto. Suba trezentos metros por qualquer encosta e muda de estação: o terraço da piscina na Calheta pode estar a 26 graus enquanto a floresta poucos quilómetros estrada acima está dentro de uma nuvem. É por isto que as listas de melhores zonas falham aqui. A Madeira não tem zonas. Tem costas e altitudes, e a resposta honesta sobre onde ficar começa por decidir com qual delas quer acordar.
Eis a opção honesta por defeito: a primeira visita deve ter base na costa sul. Não é uma opinião polémica, é aritmética. Mais horas de sol, mar mais calmo, a maioria dos bons restaurantes da ilha, e distâncias curtas o suficiente para que as férias continuem a parecer férias.
Mas o sul não é uma resposta única, porque o Funchal e o sudoeste são duas férias diferentes. O Funchal é uma capital pequena e movimentada, com um porto a trabalhar. O sudoeste, de Câmara de Lobos até à Calheta e à Ponta do Sol, é socalcos de bananeiras, vilas piscatórias e casas com piscina, cosido por pontes e túneis. Escolha entre os dois antes de olhar para uma única propriedade. E se veio à Madeira pelos vales verdes e não se importa com chuva na janela, salte já para a frente: a secção sobre o norte foi escrita para si.
Ninguém se arrepende de escolher o hotel errado na Madeira. Arrepende-se de escolher a costa errada.
O Funchal é a resposta certa mais vezes do que os viajantes experientes gostam de admitir. É uma cidade a sério, construída como um anfiteatro sobre a baía, com o Mercado dos Lavradores a vender maracujá numa dúzia de variedades, as portas pintadas da Zona Velha, jardins empilhados pela encosta acima, e a maior concentração de bons restaurantes da ilha. Se é a primeira visita e não quer conduzir, é a única base sensata: tudo se faz a pé, há táxis em todo o lado, e todos os passeios e barcos partem daqui.
Convém saber que o Funchal se divide em dois. O centro histórico é onde está a vida. A zona do Lido, a oeste do centro, é o bairro dos hotéis: piscinas sobre o oceano, um longo passeio marítimo para o pôr-do-sol, e sobretudo restaurantes de hotel. Agradável, mas se ficar lá, vai continuar a vir ao centro para jantar.
Quem não deve ficar no Funchal: quem imagina manhãs tranquilas de villa. Isto é uma cidade, com trânsito, e nos dias em que atracam dois navios de cruzeiro o centro enche antes das dez da manhã. Quem tem o sono leve deve ter cuidado com quartos por cima dos bares da Zona Velha. Veredicto honesto: dê ao Funchal duas ou três noites dentro de uma viagem mais longa, ou a semana inteira se é a primeira vez e se recusa a conduzir.
Quarenta minutos a oeste da capital, a Calheta é o recanto de sol do oeste da ilha, e tem algo que a Madeira quase nunca oferece: uma praia de areia dourada. A areia veio de barco, e a vila não finge o contrário. E funciona. Dois areais abrigados junto a uma marina, água calma, crianças nos baixios até à hora do jantar.
As encostas por cima concentram grande parte das villas modernas da ilha: casas de betão e vidro com piscinas aquecidas, entre socalcos de bananeiras, quase todas com o longo horizonte atlântico como quarta parede da sala. Lá em cima fica a Casa das Mudas, o centro de artes em basalto de Paulo David, um lembrete de que esta freguesia leva o design a sério.
As contrapartidas, sem rodeios: o Funchal fica a trinta e cinco a quarenta e cinco minutos, e vai lá menos vezes do que pensa. Não há um verdadeiro centro para passear a pé, e as noites são sossegadas. E é exactamente por isso que quem escolhe a Calheta a escolhe: famílias com crianças, e grupos que planeiam viver à volta da sua própria piscina em vez de viver de mala aberta.
O nome é uma promessa. A Ponta do Sol é, estatisticamente, a freguesia mais soalheira da ilha, um facto que os locais mencionam nos primeiros minutos de conversa. O que encontra é uma rua estreita de casas em tons pastel a subir de uma praia de calhau, meia dúzia de bares, uma falésia de cada lado, e pores-do-sol que fazem o oeste da ilha parecer o lado certo. A família do romancista John dos Passos saiu daqui, e a vila ainda guarda esse tipo de silêncio.
Desde 2021 acolhe também uma pequena aldeia de nómadas digitais, por isso as mesas dos cafés têm mais portáteis do que seria de esperar numa vila deste tamanho. Quem não deve ficar aqui: quem precisa de opções depois das dez da noite, e quem não gosta de subidas a caminho de casa. Todos os outros, e sobretudo vocês os dois, vão ter dificuldade em ir embora.
A quinze minutos do Funchal, Câmara de Lobos é a vila piscatória que Churchill se sentou a pintar em 1950, e a maioria dos visitantes ainda faz o que ele fez: admira-a de cima e segue caminho. Perdem eles. Lá em baixo, no porto, os barcos são barcos de trabalho, o peixe-espada-preto chega antes do amanhecer, e os bares de poncha à volta da rampa servem a versão mais afiada da bebida da ilha a pescadores e arquitectos no mesmo balcão.
Mais acima, o Estreito de Câmara de Lobos vive entre as vinhas que alimentam o vinho Madeira, com quintas debruçadas sobre a baía. Fique aqui se quer a Madeira com madeirenses lá dentro, e os restaurantes do Funchal a um táxi de dez euros. Só precisa de perceber o que isto é: uma vila a sério, não um resort. É exactamente esse o ponto.
Digamos primeiro a parte incómoda. A costa norte recebe sensivelmente o dobro da chuva do sul, o mar está muitas vezes demasiado bravo para nadar entre o outono e a primavera, e há dias em que a nuvem simplesmente se senta ao nível do mar e recusa sair de lá. Se precisa de tempo de piscina garantido, pare de ler e volte à Calheta.
Agora a outra parte. O norte é a Madeira das fotografias que o fizeram comprar os voos. O Seixal tem uma praia de areia negra e piscinas naturais da cor de vidro de garrafa, São Vicente está num vale tão verde que parece irreal, e o Porto Moniz tem piscinas de lava que o Atlântico volta a encher a cada série de ondas. Há cascatas a cair ao lado da estrada, e às vezes em cima dela.
Os túneis mudaram tudo: o Funchal está agora a menos de uma hora do Seixal ou de São Vicente, e a pouco mais do Porto Moniz, e uma base na costa norte já não é um sacrifício logístico. Escolha-a se esta é a segunda visita, se carrega uma câmara com intenção, ou se é do tipo de viajante para quem o tempo é atmosfera e não um problema.
O leste é a costa pragmática. O Caniço é o que a Madeira tem de mais parecido com uma zona de resort, com a reserva marinha do Garajau lá em baixo para quem mergulha. Santa Cruz é uma vila local a sério, com piscinas junto ao mar e aviões em aproximação final por cima. Machico, na sua baía larga no extremo leste, foi onde os portugueses desembarcaram há seiscentos anos, e tem a sua própria praia de areia e uma frente de mar fácil, sem pressa.
Quando o leste é a resposta certa: aterra à meia-noite, voa às seis, quer uma noite de arranque ou de despedida em cada ponta da viagem, ou planeia caminhar a Ponta de São Lourenço ao nascer do sol antes de os autocarros chegarem. Os contras honestos: é mais ventoso do que o sudoeste, os aviões fazem parte da banda sonora, e uma semana inteira aqui significa muita estrada até às melhores partes da ilha.
Primeira viagem e sem carro: Funchal. Crianças e piscina: Calheta. Só vocês os dois: Ponta do Sol. Quer vizinhos que ainda lá vivam em janeiro: Câmara de Lobos, ou o Estreito acima. Trouxe o casaco impermeável de propósito: Seixal ou São Vicente. Aterra à meia-noite ou voa às seis: Machico ou Santa Cruz.
E a regra da semana. Menos de uma semana, escolha uma única base na costa sul e visite tudo a partir daí; a ilha é pequena e permite-o. Uma semana ou mais, divida a estadia: primeiro o sul, depois o norte. Secar no Funchal depois de três dias de chuva no Seixal sabe a derrota. Chegar ao Seixal ainda com o sol na pele sabe a expedição. A ordem importa.
A tese, então. A Madeira é suficientemente pequena para se ver toda a partir de qualquer base, mas só se acorda num sítio. A vista da mesa do pequeno-almoço, o som do outro lado da janela, se a manhã cheira a sal ou a eucalipto: tudo isso se decide no momento em que escolhe a costa. Escolha primeiro a costa. A casa vem depois.
E foi também assim que construímos a coleção KIVO. Cada casa foi visitada pessoalmente, na costa que a mereceu, na Madeira e no Porto Santo. Sabemos que terraço apanha o sol da manhã e que vila fica em silêncio em janeiro. Diga-nos com quem viaja, e dizemos-lhe que costa lhe serve.
Cada casa da coleção KIVO foi visitada pessoalmente. Diga-nos com quem viaja e dizemos-lhe que costa lhe serve. Madeira e Porto Santo, com curadoria.
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Enquanto o resto da Europa constrói mais um hotel boutique, os Açores continuam genuinamente selvagens. Lagos vulcânicos, nascentes termais na floresta, observação de baleias a partir da varanda. Isto é o que o luxo parece antes de uma ilha ser 'descoberta'.

Todas as cidades têm duas versões: a que os turistas vêem, e a que realmente existe.