A meio da Encumeada, a nuvem fecha-se e a temperatura cai uns seis graus. Há uma taberna à beira da estrada. Lá dentro, um homem de gorro de lã bate qualquer coisa num copo com um pau curto de madeira, depressa, como se estivesse zangado com ela. Não está zangado. Está a fazer a vossa poncha.
Se procuram uma carta de cocktails, um enfeite no copo, um barman de pinça, parem de ler agora: os bares de hotel do Funchal tratarão de vocês com todo o gosto. A poncha não é um cocktail. É um pequeno ritual sério, com três ingredientes e nenhuma paciência para decoração.
O que é, afinal, a poncha da Madeira?
A poncha é a bebida da Madeira: aguardente de cana da ilha, batida com mel de abelha e limão fresco até fazer espuma. Prepara-se na hora com um utensílio de madeira chamado mexelote, serve-se sem gelo e bebe-se de pé. É mais forte do que parece. Consideravelmente.
Três ingredientes, sem atalhos
Comecem pela aguardente. A aguardente de cana é prima insular do rum, feita de cana que ainda cresce nas encostas baixas e quentes da Madeira e destilada num punhado de engenhos em funcionamento. Normalmente fica entre os quarenta e os cinquenta graus. Fixem esse número. O mel é mel de abelha, não o mel de cana escuro que vai para o bolo de mel. O limão entra duas vezes: sumo para a acidez, casca para o perfume. A receita é isto. O resto é conversa.
O mexelote, e o nome que não imprimimos
O utensílio importa. O mexelote é um pau curto de madeira, talhado com uma base alargada, meio esmagador, meio batedor. Esmaga a casca do limão, dissolve o mel, mete ar na aguardente. Os madeirenses têm outro nome para ele, mais antigo e consideravelmente menos educado, e não o vamos imprimir aqui. Perguntem a quem está atrás do balcão. Vai dizer-vos, e vai gostar de dizer.
Câmara de Lobos, onde se diz que tudo começou
A palavra poncha, diz-se, é prima do punch, trazida pelas antigas rotas marítimas do Oriente. A bebida em si pertence, por consenso, aos pescadores de Câmara de Lobos: homens que saíam antes do amanhecer, voltavam com frio e sal na roupa, e precisavam de algo que fosse remédio, aquecimento e coragem no mesmo copo. Verdade ou bordado, a vila continua a servir o padrão pelo qual todas as outras ponchas se medem.
Ninguém bebe poncha sentado. Sentar-se é o que vem depois.
Tradicional, regional, e onde acaba a tradição
Peçam uma poncha tradicional e recebem a trindade: aguardente, mel, limão. Peçam uma regional e o sumo de laranja junta-se ao limão, mais suave, mais fácil, a versão que muitos madeirenses tratam hoje como a da casa. Depois vêm as modernas: tangerina, maracujá, a fruta que estava madura naquela semana. Dizemo-lo com carinho genuíno: são deliciosas, e são bebidas de fruta com aguardente dentro. A tradição acaba no limão. O que vem depois é prazer, o que também é permitido.
Onde beber a sério: Câmara de Lobos e a estrada da Encumeada
Duas peregrinações. Primeiro, a própria Câmara de Lobos: os pequenos balcões à volta do porto, onde a bebida terá sido inventada e ainda é tratada como dever cívico. Segundo, a estrada de montanha pela Serra de Água em direção à Encumeada, onde as tabernas de beira de estrada fizeram da poncha uma instituição regional: cascas de amendoim no chão, copos que chegam com uma taça de amendoins, tenham pedido ou não. Podíamos imprimir nomes. Não o fazemos, de propósito: o balcão onde acabarem, onde quer que o nevoeiro vos pare, cumpre a missão.
Como pedir como um local
Cheguem ao balcão. Digam uma poncha de limão, ou uma regional se quiserem a laranja. Não peçam gelo e não apressem ninguém: o mexelote é o espetáculo inteiro, e acontece à vossa frente. Aceitem os amendoins. Oiçam o som, madeira contra vidro, o mel a ceder. Quando o som para, a poncha está pronta. A conversa também.
A regra: de pé, à conversa
A poncha bebe-se de pé, copo no balcão, cotovelos negociáveis. É um contrato social, não uma prova de vinhos. E aqui fica o aviso honesto, porque o mel e o limão mentem lindamente: a aguardente por baixo anda normalmente entre os quarenta e os cinquenta graus. A primeira poncha é uma conversa. A segunda é uma decisão. A terceira decide por vocês. Os locais bebem devagar, comem enquanto bebem e vão a pé para casa. Copiem os três hábitos.
Uma bebida para o tempo fresco da Madeira
A poncha depende do tempo, e o tempo que ela quer é mau. Pertence ao nevoeiro no alto da serra, à chuva a bater na costa norte, aos dias curtos e luminosos entre outubro e março, quando a ilha respira e volta a pertencer a si própria. A Madeira guarda duas grandes respostas para uma noite fria, e a outra envelhece em cascos por cima do Funchal há uns dois séculos. Bebam as duas na mesma semana e vão perceber esta ilha mais depressa do que qualquer museu conseguiria.
Todas as casas da coleção KIVO ficam a curta distância de um balcão a sério, e a nossa equipa local indica-vos o dela: não o mais famoso, aquele onde de facto param. Se o tempo fresco vos tentar, as janelas Off-Calendar existem precisamente para esses meses. E se quiserem receber estes guias antes de toda a gente, a newsletter THE KIVO TRAVELLER, logo abaixo, é a porta de entrada.
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