
A ilha atlântica que estava escondida à vista de todos
Há um momento, cerca de quarenta minutos após a descolagem de Londres, em que se nota que as nuvens lá em baixo mudaram. Já não são o tecto cinzento do norte da Europa. São brancas, esculpidas, a mover-se depressa. E depois, quase sem aviso, a Madeira aparece. Não gradualmente. De repente. Uma massa escura a erguer-se do Atlântico, verde no topo, falésias a cair a pique na água azul. Parece um sítio onde ainda não se esteve.
Três horas e quarenta minutos de Londres. Três horas e meia de Frankfurt. Três de Paris. Mais perto do que Marraquexe. Mais perto do que as Canárias. E, no entanto, quando se menciona a Madeira a amigos que planeiam férias de verão, a resposta é quase sempre a mesma: não é para lá que vão os mais velhos?
Era. Isso está a mudar.
Eis a versão honesta do que aconteceu aos sítios que costumávamos adorar. Ibiza descobriu-se a si própria. Mykonos tornou-se uma marca. A Costa Amalfitana cobra €40 por um toldo e €200 por um almoço medíocre. A Puglia era 'a próxima tendência' há cinco anos e agora já parece a tendência actual, que é mais ou menos quando os sítios interessantes deixam de ser interessantes.
A Madeira escapou a tudo isto. Não por acaso, mas por geografia. A ilha é demasiado vertical para o desenvolvimento em massa. Não há faixas costeiras planas para alinhar com resorts. O terreno é vulcânico, íngreme e densamente verde. Não se pode construir uma Ibiza aqui, mesmo que se queira. A paisagem não permite.
O que se obtém é uma ilha que ainda parece genuinamente selvagem, a vinte minutos do aeroporto. Trilhos de levadas cortam florestas de louros anteriores à presença humana. Falésias caem 600 metros até ao oceano. Aldeias agarram-se a encostas alcançadas por estradas de faixa única. E a luz — a luz atlântica aqui é diferente da mediterrânica. É mais suave, mais dramática, em constante mudança com as nuvens que passam sobre as montanhas.
A arma secreta da Madeira não é a paisagem. É o clima. A ilha situa-se numa zona subtropical que oferece o que o Mediterrâneo promete mas cada vez menos consegue: condições quentes e agradáveis sem extremos.
As temperaturas de verão situam-se entre 22°C e 26°C. Não os 40°C do sul de Espanha ou da Grécia que nos empurram para dentro de casa do meio-dia às cinco. O inverno raramente desce abaixo dos 17°C. Pode-se nadar no oceano em janeiro. Pode-se jantar ao ar livre em dezembro. A costa sul, onde se encontram a maioria das melhores propriedades, está protegida dos ventos alísios e recebe visivelmente mais sol do que o norte.
Para famílias com crianças pequenas, isto importa mais do que a estética. Ninguém desfruta de uma villa a €500 por noite quando estão 42°C e a água da piscina parece uma banheira. O clima da Madeira é confortável. Conforto genuíno, utilizável, durante todo o ano.
Em Santorini ou Saint-Tropez, €500 por noite dá um bom quarto com vista. Na Madeira, dá uma villa contemporânea de quatro quartos com piscina infinita, jardim privado, vista para o oceano de todas as divisões, e espaço que custaria o triplo na Côte d'Azur.
A proposta de valor é real, não porque a Madeira é barata, mas porque não passou pelo ciclo de inflação que atinge todos os destinos 'descobertos'. Os preços dos imóveis são uma fração das Baleares ou do Algarve. Isso significa que as propriedades para arrendamento podem oferecer mais espaço, melhor design e qualidade superior a preços que parecem quase suspeitos para quem está habituado aos preços mediterrânicos.
Mas não se trata de valor no sentido de orçamento. Trata-se de obter o que realmente se queria quando se imaginou férias numa villa: privacidade, beleza, espaço, e a sensação de ter descoberto algo antes de toda a gente.
Os viajantes de luxo importam-se com a comida. E aqui, a Madeira surpreende. A ilha desenvolveu uma cena gastronómica que tira partido da sua posição única: frutas subtropicais, marisco atlântico, e uma tradição vinícola de seis séculos.
O Mercado dos Lavradores, no Funchal, não é um mercado turístico. É onde os locais compram maracujá, anona e peixe-espada-preto pescado a 800 metros de profundidade. Restaurantes como o Il Gallo d'Oro têm duas estrelas Michelin. Sítios mais pequenos em Câmara de Lobos e Jardim do Mar servem lapas grelhadas e poncha a uma mistura de pescadores e arquitectos.
O vinho merece o seu próprio parágrafo. O vinho Madeira é um dos grandes vinhos fortificados do mundo, e a melhor forma de o compreender é na origem. A família Blandy faz vinho no Funchal desde 1811. Uma prova na sua adega não é uma experiência turística. É uma educação. E ao contrário da maioria das regiões vinícolas, a Madeira quase não foi comercializada. Podem-se visitar produtores que ainda usam métodos do século XVIII, porque aqui, isso não é um truque. É simplesmente como trabalham.
Os melhores destinos de viagem partilham uma qualidade difícil de fabricar: parecem não precisar de nós. A Madeira tem essa qualidade. A ilha tem o seu próprio ritmo — agrícola, marítimo, sem pressa. O turismo existe, mas não consumiu o lugar.
As caminhadas nas levadas são de classe mundial mas raramente lotadas. As praias são vulcânicas e dramáticas, não manicuradas. A arquitectura está a evoluir de formas genuinamente interessantes, impulsionada por arquitectos locais que trabalham com o terreno vulcânico em vez de contra ele. As pessoas são acolhedoras de uma forma que parece natural, não transacional.
Para viajantes que já fizeram as Baleares, as ilhas gregas, o sul de França — e que procuram um sítio que lhes dê a mesma sensação que esses lugares davam há quinze anos — a Madeira é a resposta. Não porque esteja a tentar ser a próxima coisa. Porque ainda está a ser ela própria.
E no turismo de luxo, isso é a coisa mais rara de todas.
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